“Quem vota, procure a sociedade para ouvi-la e criar os instrumentos para uma transição adequada”, diz presidente da FIEB sobre escala 6x1

Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

Dirigente defendeu debate amplo sobre redução da jornada de trabalho e fim da escala 6x1 e alertou para possíveis impactos sobre custos, preços, produtividade e consumo

O presidente da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (FIEB) defendeu, nesta segunda-feira (31), que a discussão sobre a proposta de redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6x1 seja acompanhada de um amplo diálogo com a sociedade e de uma transição capaz de considerar as diferentes realidades dos setores produtivos.

A declaração foi feita durante conversa com a imprensa, na sede do Sebrae, na Costa Azul, em Salvador, que reuniu os presidentes das principais federações empresariais da Bahia para apresentar o posicionamento do setor produtivo sobre a votação da proposta em período eleitoral.

Ao abordar os possíveis efeitos da redução da jornada, o presidente da FIEB ressaltou que os impactos não serão iguais para todas as atividades econômicas. Ele utilizou como exemplo o setor da construção civil, no qual, segundo ele, é possível reorganizar a jornada de maneira relativamente simples, embora haja reflexos sobre a produção.

“Eu sou do setor da construção civil. Na construção civil nós temos jornada de 44 horas semanais e nós trabalhamos de segunda a sexta. Nove horas, segunda a quinta, e oito horas na sexta”, explicou.

Para o dirigente, uma eventual redução progressiva para 40 horas semanais poderia ser operacionalizada no segmento, mas representaria quatro horas a menos de trabalho dentro do ambiente de produção.

“O custo é a redução de quatro horas de trabalho dentro do ambiente de produção”, afirmou.

Uma das alternativas, segundo ele, seria compensar a redução da jornada com ganhos de produtividade ou com a contratação de novos trabalhadores. No entanto, essa possibilidade pode elevar os custos das empresas, especialmente em atividades que trabalham com metas de produção e prazos determinados.

“Vamos buscar melhoria de produtividade, vamos eventualmente cumprir prazos com cliente e buscar um trabalhador a mais”, disse.

O presidente da FIEB ponderou que empresas que não tenham condições de repassar esse custo ou que não estejam pressionadas por prazos poderão enfrentar maiores dificuldades para assumir novos contratos.

“Então, vai aumentar o custo. Então, o cliente pode pagar o aumento de custo? Não pode? Vai ser uma grande interrogação a ser respondida pelo mercado”, afirmou.

Impactos diferentes entre setores

Outro exemplo apresentado pelo dirigente foi o de indústrias que funcionam em regime de turnos e precisam manter a produção de forma contínua. Nesses casos, segundo ele, a mudança na jornada exige uma reorganização mais complexa das escalas.

“Como é que ela vai organizar? Ela tira um turno? Ela tira o sábado? Pô, mas ela precisa produzir os sete dias da semana”, questionou.

Ele citou como referência indústrias do Polo Industrial de Camaçari, que operam continuamente e dependem de escalas para garantir a produção durante 24 horas.

“Como é que eu organizo agora?”, perguntou, destacando que empresas que trabalham nesse modelo ainda precisam encontrar soluções específicas para adequar as escalas às novas regras.

Segundo o presidente da FIEB, a própria organização dos intervalos também pode ser afetada pela mudança na jornada, exigindo negociações e novos arranjos entre empresas e trabalhadores.

“Eu tenho conversado com as empresas que atuam nisso. Elas não têm solução pronta, até porque precisa sentar com o representante dos trabalhadores para organizar esse processo”, afirmou.

Ele também citou o regime de trabalho 12 por 36 como exemplo da complexidade da discussão, já que a quantidade de horas trabalhadas pode variar de uma semana para outra.

Pequenas empresas

O dirigente destacou ainda que os efeitos podem ser especialmente relevantes para micro e pequenas empresas, que possuem estruturas mais enxutas e menos capacidade para absorver aumentos de custos.

“Você tem quatro empregados. Onde é que chega o microempresário, o empreendedor, o MEI?”, questionou.

Para ele, a contratação de um novo funcionário pode ser uma alternativa para compensar a redução das horas trabalhadas, mas também representa um aumento significativo das despesas para empresas de pequeno porte.

“Contrato mais um, é um parque de custos, é muito simples. Eu vou reduzir minha capacidade de produzir”, afirmou.

Na avaliação do presidente da FIEB, não existe uma solução única para todos os segmentos.

Todo esse arranjo é muito individual, por empresa, por segmento industrial ou comercial ou empresarial de uma forma geral”, disse.

Efeito sobre preços e consumo

Além dos impactos diretamente relacionados às empresas, o dirigente chamou atenção para possíveis consequências sobre os preços e o consumo das famílias.

Segundo ele, um eventual aumento dos custos de produção pode ser repassado aos preços dos produtos e serviços, reduzindo o poder de compra da população.

“Não tem impacto? Isso é uma oficina. Tem impacto. Qual é o impacto? Aumento de custo tira margem da empresa. Aumento de custo aumenta o preço para o cliente”, afirmou.

Ele acrescentou que a redução da atividade econômica também pode contribuir para elevar preços e afetar o consumo.

“As pessoas diminuem o consumo. A renda é uma só”, disse.

O presidente da FIEB relacionou ainda o debate ao atual cenário de endividamento das famílias e de juros elevados, argumentando que parte da renda dos consumidores já está comprometida.

“A renda está sendo comprimida pelo endividamento das famílias, com juros elevados”, afirmou.

Na visão do dirigente, caso os preços subam, o consumidor poderá ser obrigado a reduzir a compra de outros produtos para manter o consumo de itens considerados essenciais.

“Se vai aumentar o preço dos produtos, vai consumir menos produtos”, explicou.

Transição e diálogo

Ao defender uma discussão mais ampla sobre a proposta, o presidente da FIEB afirmou que os impactos da mudança não se limitariam às empresas diretamente atingidas pela nova jornada.

Ele utilizou como exemplo trabalhadores de setores que eventualmente não tenham relação direta com a medida, mas que poderiam sentir seus efeitos por meio de aumentos de preços.

“Eu não tenho nada a ver com essa história, eu não posso chegar no banco e me paguem mais porque você reduziu minha jornada”, afirmou, ao exemplificar a situação de um trabalhador bancário.

Para o dirigente, a questão central é avaliar se a sociedade está disposta a absorver os custos decorrentes da mudança e, em caso positivo, estabelecer um período adequado de adaptação.

“Então, é uma medida que tem impacto. A sociedade quer pagar pelo impacto? Beleza, mas precisa ter o tempo para se adequar”, declarou.

Ao final, o presidente da FIEB defendeu que o Congresso e os demais agentes envolvidos no processo consultem a sociedade antes da votação e construam mecanismos para evitar impactos abruptos sobre a economia.

“O que a gente vem discutindo é: olha, vamos discutir. Quem vota, procure a sociedade para ouvi-la e criar os instrumentos para uma transição adequada”, concluiu.

 

Compartilhe:

Siga a gente Instagram | Facebook | Twitter | Youtube

LEIA TAMBÉM

PUBLICIDADE

REDES SOCIAIS

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

error: Conteúdo protegido.